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Jesus perguntou: Pedro, tu me amas? - 2/4

  • Carlos Augusto S. da Fonseca
  • 16 de jan.
  • 9 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

Uma análise do significado dos verbos gregos agapáo e filéo usados por Jesus e Pedro em João 21:15-19.
Este segundo artigo trata especificamente do significado do verbo agapáo

Imagem iStock.com/ctar55

 

I - Introdução

Iniciamos, no post anterior, a análise do verbo agapáo (ἀγαπάω) a partir de três grupos de versículos do Evangelho de João: o amor de Jesus por João (13:23; 19:26; 20:2; 21:7,20), o amor de Jesus por Lázaro (11:3,5,36) e o amor do Pai pelo Filho (3:35; 5:20; 10:17).

Naqueles versículos, João empregou tanto o verbo agapáo quanto o verbo filéo para se referir ao amor.

Apesar de parecerem sinônimos, o verbo agapáo se diferencia do verbo filéo (φιλέω) em um aspecto específico, o qual se constitui em uma chave importante para a interpretação do texto bíblico, como se verá neste post.


II - O aspecto de proximidade no verbo agapáo

No Evangelho de João, observa-se o seguinte: nas situações em que o sujeito e o objeto do verbo, isto é, a pessoa que ama e a pessoa que é amada, estavam próximas fisicamente uma da outra, o escritor empregou o verbo agapáo. Nas outras situações, João empregou o verbo filéo.

Esse aspecto de proximidade inerente ao verbo agapáo é constatado durante a leitura de todo o texto bíblico. Ele é originariamente de natureza física (isto é, as pessoas envolvidas estão no mesmo local físico, próximas uma da outra), mas abrange a natureza espiritual quando uma das pessoas é Deus.

Quando o Pai celeste ou o Senhor Jesus são as pessoas que amam e os discípulos são as pessoas amadas, se não caracterizada a presença física, a situação de proximidade permanece, porque Deus é espírito e o seu Espírito Santo habita em seus filhos; portanto, todos estão perto, pois estão juntos em uma união espiritual .


Por outro lado, em João 5:20, Jesus fala do amor do Pai pelo Filho com emprego do verbo filéo. O motivo disso é que o público ouvinte de Jesus eram judeus incrédulos, que não conseguiam entender a relação de unidade entre o Pai e o Filho, e por isso Jesus falou conforme a capacidade deles de ouvir naquele momento.


Essa característica de proximidade entre as pessoas no verbo agapáo tem uma relação intrínseca com o seu significado; ela deve nortear a interpretação mais precisa do verbo amar, como será visto mais adiante.

Quanto ao verbo filéo, o seu conceito se diferencia de agapáo, pois ele não é caracterizado por uma relação de proximidade, mas sim de escolha, decisão, aprovação e amizade, como será demonstrado no próximo post.


III - Característica presente em todo o texto bíblico

O aspecto da proximidade física (ou espiritual) que caracteriza o verbo AGAPÁO está presente em toda a Bíblia.


No Evangelho de João

Vimos que o verbo agapáo empregado no Evangelho de João contém a ideia clara de presença ou proximidade física (ou espiritual em alguns casos) entre a pessoa que ama e a pessoa amada, perceptível na comparação dos contextos de agapáo e filéo.


Em todo o Novo Testamento

Indo-se mais adiante, com a leitura dos demais Evangelhos, das Cartas e de Apocalipse, se pode observar que a mesma ideia orienta o uso do verbo agapáo em todo o Novo Testamento.


No segundo maior mandamento divino

No Antigo Testamento, o aspecto de proximidade no verbo amar já se manifesta nas próprias palavras do mandamento de Deus quando coloca o próximo como a pessoa a quem devemos amar.


Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR. (Levítico 19:18, ARA)


Esse mandamento também é encontrado em Êxodo 20:16,17; Levítico 19:17,18; 20:10 e Deuteronômio 15:2).

Nesses versículos, o verbo amar no hebraico é ‘ahav (אהב), que foi traduzido para o grego como agapáo (ἀγαπάω) na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento).

O objeto do verbo, isto é, o substantivo próximo, é re’a (רֵעַ), traduzido na Septuaginta por plesíos (πλησίος). Essa palavra grega é um advérbio, com o sentido de perto ou próximo, e também um substantivo, com o sentido de vizinho ou próximo - a pessoa que está perto (DANKER, 2000, p. 830) [1]


Em todo o Antigo Testamento

O verbo 'ahav no texto hebraico do Antigo Testamento foi traduzido para o grego 196 vezes como agapáo [2] e 33 vezes como filéo na Septuaginta [3]. Nas ocorrências em que foi traduzido por agapáo, o aspecto de proximidade sempre está presente.


Algumas passagens do Antigo Testamento mostram com bastante clareza o aspecto de aproximação que envolve a ação de amar (agapáo):


O amor de Deus pelo ser humano

Há muito que o SENHOR me apareceu, dizendo: Com amor eterno te amei; também com amável benignidade te atraí. Jeremias 31:3


O amor do ser humano por Deus

Tende cuidado, porém, de guardar com diligência o mandamento e a lei que Moisés, servo do SENHOR, vos ordenou: que ameis o SENHOR, vosso Deus, andeis em todos os seus caminhos, guardeis os seus mandamentos, e vos achegueis a ele, e o sirvais de todo o vosso coração e de toda a vossa alma. Josué 22:5 (ARA).


O mesmo ocorre nas passagens que tratam do amor de um ser humano por outro ser humano. Dentre elas, algumas se destacam, como a do amor do escravo pelo seu senhor e sua casa (Deuteronômio 15:12-17) ou do amor de Rute, a moabita, pela sua sogra israelita Noemi (Rute 1.14–18; 4:14–15), as quais demonstram o amor pelas atitudes e ações que aproximam a pessoa que ama da pessoa amada.


IV - O significado do verbo AGAPÁO

Quando se refere a relação entre pessoas, o verbo agapáo expressa o amor de alguém que, generosamente e com coração compassivo, faz o bem a outro, e isso se realiza por meio de uma ação.

Por trás dessa ação há uma ideia primitiva de movimento, de transmissão de uma bênção física que uma pessoa dá à outra; para isso, essas pessoas precisam estar próximas uma da outra.

Por exemplo, quando alguém dá um copo d’água a um sedento, ou um alimento a um faminto, a proximidade física é necessária - é preciso haver uma aproximação para que um alcance o outro. Portanto, a ideia de proximidade é decorrente da própria natureza do verbo agapáo.


No texto bíblico, o amor expresso pelo verbo agapáo se apresenta em contextos diversos: no amor de Deus pelo ser humano, no amor do ser humano por Deus, no amor entre os irmãos, no amor de pai e filho, no amor que o esposo deve ter pela esposa (Efésios 5:25), dentre outros. Na maioria das passagens bíblicas, ele se destaca como sacrificial e incondicional, que se origina em Deus e deve existir entre os cristãos.

Contudo, ele também é aplicado a diversas situações, positivas ou negativas, como o amor por coisas seculares (Apocalipse 12:11; Lucas 11:43) ou pelo pecado (2 Pedro 2:15; João 3:19). Naturalmente essa última aplicação se dá por extensão, por conta da entrega que o sujeito faz de sua vida aos objetos seculares amados.

Ainda que essas situações diversas possam gerar certa dúvida sobre o seu significado, o verbo agapáo definitivamente se distingue pela característica da proximidade entre as partes, isto é, entre o sujeito e objeto do verbo, por causa da natureza de doação e de busca do bem-estar maior do próximo, como explanado mais acima.


A natureza do verbo agapáo

Do que foi visto acima, o verbo agapáo pode ser resumido em dois aspectos da sua natureza:


a) Ele se define com ações, as quais têm um pano de fundo de proximidade física. Por ser ação, o verbo agapáo não se confunde com meros sentimentos ou palavras. Isso é claro neste texto:


16 Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos.

17 Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?

18 Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade.

1Jo 3.16–18 (ARA)


b) Ele se define com ações que envolvem aproximação. Quem ama procura o bem do outro; ele não se afasta, mas se aproxima. Uma excelente visão do que seja o sentido de proximidade expresso pelo verbo agapáo pode ser vista na parábola do bom samaritano (Lucas 10:25-37).


V - Quem é o meu próximo?


A Parábola do Bom Samaritano

Nessa parábola, Jesus explica quem é o próximo referido no segundo maior mandamento (amarás ao teu próximo como a ti mesmo).

Ela conta que um homem é assaltado e deixado quase à morte em uma estrada. Um sacerdote e, depois, um levita, ao passarem na estrada e o virem, afastaram-se e passaram à distância. Mas um terceiro homem, que era um samaritano, viu o homem, teve compaixão dele, aproximou-se e cuidou dele com empenho e com todos os seus recursos disponíveis para o salvar.


Quem eram os mais próximos do homem ferido? O sacerdote e o levita eram mais próximos dele do que o samaritano, pois a eles, como homens a serviço de Deus, cabia o exercício da misericórdia. O samaritano era o menos próximo do homem ferido, porque era um estrangeiro, inclusive era desprezado pelos líderes religiosos judeus por considerarem impuros os samaritanos (João 4:9).

No entanto, aqueles que deveriam ser os mais próximos, afastaram-se, e aquele que seria o menos próximo, aproximou-se do homem ferido para o socorrer.


O que é ser próximo?

O samaritano viu, sentiu compaixão e aproximou-se do homem ferido para o socorrer.


Para se ver alguém a ponto de enxergar a sua necessidade é preciso não estar a uma distância longa. Enxergar faz parte da ideia de proximidade do verbo amar. Isso está evidente em 1João 4:20:

Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?


Além de enxergar, é preciso se aproximar para cumprir o amor, isto é, para agir em favor do outro. Foi o que o samaritano fez. Havia uma distância social, mas o samaritano se aproximou, ele se fez o próximo do homem necessitado.


No caso do amor ordenado por Deus no segundo maior mandamento, é ainda preciso ter um coração bondoso e transformado pela ação da Palavra de Deus e do Espírito Santo para que o amor seja perfeito.

44 Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; 45 para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. 46 Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? 47 E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? 48 Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.

Mateus 5:44-47


VI - Conclusão

A natureza de proximidade como essência do verbo agapáo está presente no Evangelho de João e se estende por todo o texto das Escrituras Sagradas.

Ela deve ser, talvez, originária do período inicial da formação desse verbo na língua grega.

Entretanto, a ideia de proximidade também está presente no verbo 'ahav, no texto hebraico, nas passagens em que ele foi traduzido por filéo na Septuaginta, o que leva a entender que essa ideia de proximidade já fazia parte da ação de amar e que a língua grega apenas contribuiu para revelar o seu significado de maneira mais precisa.


Por conta do sentido de agapáo aqui exposto, o apóstolo João empregou no seu Evangelho o verbo agapáo quando as pessoas envolvidas estavam próximas uma da outra, mas usou o verbo filéo quando não queria transmitir essa ideia, mas sim um outro sentido, que será analisado no próximo artigo.


VII - Aplicação

O amor expresso pelo verbo agapáo é uma ordem divina para o ser humano, apresentada nos dois maiores mandamentos:

30 Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força.
31 O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.                   Marcos 12:30,31.           

Esses dois grandes mandamentos devem andar juntos. O substantivo “próximo” consta como o objeto do verbo amar no segundo mandamento; porém, a natureza de proximidade está presente em ambos os mandamentos e se revela como elemento importante no significado do verbo agapáo (amar). Assim, para amar o próximo, você precisa se aproximar dele, seja ele quem for.


Igualmente, para amar a Deus, é preciso se aproximar dele, conforme a exortação dada em Josué 22:5, citado mais acima. Essa aproximação, para quem está longe, é possível pelo caminho aberto pelo Senhor Jesus na cruz do Calvário:

6 Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.

João 14:6



 
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NOTAS

[1] Tradução livre das definições seguintes: "1 marker of a position quite close to another position, nearby, near, close"; "2 as subst. ... the one who is near or close by, neighbor, fellow human being".


[2] Precept Austin. Love (verb)-agapao (Greek Word Study). 2016.


[3] Precept Austin. Love-Phileo (Greek Word Study). 2016. 


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA. Novo Testamento trilíngüe: grego, português e inglês. Editor Luiz Alberto Teixeira Sayão. São Paulo: Vida Nova, 1998.


BÍBLIA. Antigo Testamento Poliglota: hebraico, grego, português, inglês. São Paulo: Vida Nova: Sociedade Bíblica do Brasil, 2003.


DANKER, Frederick W. A Greek-English Lexicon of the New Testament and other Early Christian Literature. 3rd editon revised and edited by Frederick William Danker. Chicado and London: The University of Chicago Press, 2000.


Precept Austin. Love (verb)-agapao (Greek Word Study). 2016. Disponível em: <https://www.preceptaustin.org/love_%28verb%29-agapao> Acesso em: 14 jan. 2025.


Precept Austin. Love-Phileo (Greek Word Study). 2016. Disponível em: <https://www.preceptaustin.org/love-phileo> Acesso em: 14 jan. 2025.

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